Wednesday, March 15, 2006

Pouco importa
Se o céu está azul
Se você quer amar
Se o filho está doente
Se precisa de ar
Pouco importa.

Esteja aqui
Nem um minuto a mais
Nem um passo atrás

Sempre em frente
Sempre aqui
tantas vezes ausente
De alma, de afeto
presa no cubo
de paredes e teto

Pouco importa
Aperte seus parafusos
A ordem: Siga
O papel: assine
O desejo: assassine

Bege como a parede
Triste como o prédio
de corredores
Onde andam dores
das pessoas sem rede
Enredadas no tédio

A barriga empurra
O que a alma já não move
Pouco importa
Se seu corpo se corrói
Apareça
Trabalhe
Fique aqui
Feche a porta
Não pense porque dói

São cinco horas
Apague as luzes
Assine a prova de que você esteve
Onde todos viram
Mas ninguém percebeu
Ateste sua presença
No local onde você não viveu
Por mais um dia
Desligue o ar
Saia e volte a respirar

Volte amanhã
E depois
e depois e depois
e depois e depois e depois
e depois e depois e depois e depois
e depois e depois e depois e depois e depois
...
..
.

Tuesday, February 14, 2006

Dois bombons e uma rosa

Faço votos de feliz casamento,
parabéns pra você,
prevaleceu seu bom-senso...

Reconheço que era chato
ser a outra eternamente
com encontros marcados
por coisas do tipo “eu subo na frente”...

Finalmente teu garoto
vai ter um pai de primeira,
você mais segurança
e um pingüim na geladeira.

Na cabeceira um relógio,
a hora mais luminosa,
churrascaria aos domingos:
dois bombons e uma rosa.

Apenas quero fazer
a necessária ressalva:
jamais comente o passado,
lembre o conselho de Dalva.
Não há xampu, não há creme
que apague ou que desmarque
da tua pele o meu beijo
fedendo a conhaque.
(Aldir Blanc)

A camisola

Uma garrafa vazia
Duas taças molhadas
Dois lábios tocados
Uma paixão celebrada
Em uma noite perfeita
Por música embalada
Ao presente assiste
Em um canto jogada
Com alegria despida
A camisola amassada

(Herbet)

Thursday, January 12, 2006

PEÇA CORAÇÃO

Um- Posso pôr meu coração a seus pés.
Dois- Se não sujar meu chão.
Um- Meu coração é limpo.
Dois- É o que veremos.
Um- Eu não consigo tirar.
Dois- Você quer que eu ajude?
Um- Se não incomodar.
Dois- É um prazer para mim. Eu também não consigo tirar.
Um- (Chora)
Dois- Vou operar e tirar para você. Para quê que eu tenho um canivete. Vamos dar um jeito já. Trabalhar e não desesperar. Pronto – aqui está. Mas isto é um tijolo. Seu coração é um tijolo.
Um- Mas ele bate por você.
(Do poeta e dramaturgo alemão Heiner Müller - Tradução de Marcos Renaux)

Tuesday, January 10, 2006

me pede que eu te dou
me pede que eu te faço
um beijo
um afago
um abraço
um café
um jantar
uma taça de vinho
um carinho
um anel de brilhantes
o fogo dos amantes
meu sonho
meu sono
a sensação do gozo
a tonteira
o desatino
meu lado homem
meu lado menino
o cansaço do amor
meu destino
minha vida meu deus
:: jose luis

Friday, January 06, 2006

rascunho

Você rifa minha paixão
Põe meu coração on sale
E eu fico assim
Facinha para qualquer poeta
Me musear
Me manusear
Me pegar emprestada
Me devolver inteira

Minhas palavras vivem sem dono
Caçando inquilinos passageiros
Servindo de albergue para qualquer viajante sedutor
Para qualquer cigano poeta
Para qualquer um disposto ao amor

Joga minhas palavras nesse bordel literário

Thursday, January 05, 2006

as unhas no lençol
pra suportar o gozo
teu amor me enlouquecia
me atormentava
me corroia
eu era a mulher da tua vida
eu sabia
voce sabia
ninguem fazia amor como nós
ninguem amava mais do que eu
e agora eu estava ali sozinha
rolando na cama
tonta
com o quarto girando
ao meu redor
completamente bêbada
completamente só
com uma bebida tão amarga
que me doía tanto na boca
como a falta do teu beijo
e o gosto do meu desejo
(Jose Luis: http://slowdown.pixelzine.com/)

Tuesday, January 03, 2006

Vestido Florido (Herbet Cunha)

Um dia claro
com aromas alegres
lembranças gostosas
em um olhar perfumado

Um ritmo raro
uma alma leve
com astral transbordando
em um sorriso estampado

Um presente eternizado
de um passado tecido
plantado com flores
em um jardim encantado

Um futuro sonhado
de um corpo escupido
desfilando alegria
em um vestido florido

Comparações (Herbet Cunha)

Algumas cores são mais bonitas que outras
Algumas palavras são mais sonoras
Algumas texturas mais agradáveis
Algumas gotas mais secasAlguns olhares mais tristes

Algumas dores são mais fortes
Algumas portas mais estreitas
Algumas janelas mais abertas
Alguns passos mais firmes
Algumas fugas mais livres

Algumas opiniões são mais repugnantes que outras
Algumas idéias são mais simples
Alguns sonhos mais lúdicos
Alguns versos mais lúcidos
Algumas comparações mais tolas

Algumas loucuras são mais relativas que outras

Bem-aventurança

Rios de água desciam sobre minha saia. Com minhas pernas curtas dobradas junto ao corpo eu assistia tia Judith lavando a cozinha, a casa, o mundo todo. Era sempre assim na casa de meu avô. Sentada na porta da cozinha eu escutava o seu lamentoso silêncio entremeado pelo esfregar da vassoura forte– áspero– cortante. Como as pernas de Judith.
Suas pernas roçavam o mês todo. Coxa com coxa. Uma na outra. O áspero caminhar era um suplício para aquelas pernas gordas que o suor não lubrificava, fazia grudar. E assar. Um mês todo de atrito para aquelas pernas que nunca se abriram, para nenhum médico, para nenhum primo curioso, para nenhum tio assanhado, para nenhuma amiga desejosa.
Pernas fechadas.
Partes fechadas.
Como convinha.
Como convém a Judith, crescida em família, criada em Cristo, mulher para casar. Enxoval pronto, iniciado anos antes – muito tempo antes de eu nascer. Pureza garantida, casta desde sempre. Como convinha.
No calor o atrito era pior. Brotoejas cresciam o amargor aguçava a solidão se fazia sentir. Passado sem experiências. Futuro sem perspectivas.
Mas no rosto sisudo, entre rugas de não-viver, expressões duras pela falta da prática do sorriso, no canto da boca mole daquela senhora da espera um breve gozo se antecipava sem explicação a cada dia de regra. Sem que ninguém explicasse ou entendesse, Judith acordava, depois de uma noite urrando em cólicas, e se punha a caminhar.
Andava por cinco dias.
Sumia.
Apesar de não convir. Apesar de preocupar o pai o pastor as tias velhas as primas safadas os primos distantes as vizinhas próximas. Quem entenderia? Onde ia aquela mulher? Um descaminho, um despropósito, um absurdo que não cabe em si de tanto des.
Andava. Sumia. Voltava no quinto dia como quem ressuscita ao terceiro. Molhada da cabeça aos pés. A satisfação no olhar durava dois dias – até a volta do atrito, das brotoejas, da ausência.
Mas por cinco dias freqüentava o paraíso. Viscosa sensação de pernas que se acarinhavam regadas a sangue fazendo pulsar o úmido deserto. O cheiro doce de carne vivente. Dedos que se melam e passeiam entre pelos, entre o gozo que se precipita. Da ponta dos pés sentia ele chegar, subindo entre as coxas indevassadas. Corrente de estúpido prazer. Conhecia a longa morte.
Andar calor sangue suor gozo um escorrer delirante que a fazia experimentar o céu. Deitada à beira do rio, rindo da vida, eletrocutada pelo prazer.
Levitava.

25 de janeiro

Mal-humorada
Estou correndo
Cheia de trabalhos
Pessoas me perguntam coisas
Compras de supermercado
Deveres de francês
Ração para a gata
Presentes de aniversário
Pasta de dente
2kg de filé de frango
Ponteiros correndo no relógio que eu não tenho

Seu cheiro na minha gaveta
Seu número no meu celular
Sua foto na minha tela
Seus presentes na minha mesa

Não consigo estar com você
Não consigo falar com você
Não consigo te escrever
E, por isso, quebro as frases
Só para fingir que é um poema