Tuesday, January 03, 2006

Bem-aventurança

Rios de água desciam sobre minha saia. Com minhas pernas curtas dobradas junto ao corpo eu assistia tia Judith lavando a cozinha, a casa, o mundo todo. Era sempre assim na casa de meu avô. Sentada na porta da cozinha eu escutava o seu lamentoso silêncio entremeado pelo esfregar da vassoura forte– áspero– cortante. Como as pernas de Judith.
Suas pernas roçavam o mês todo. Coxa com coxa. Uma na outra. O áspero caminhar era um suplício para aquelas pernas gordas que o suor não lubrificava, fazia grudar. E assar. Um mês todo de atrito para aquelas pernas que nunca se abriram, para nenhum médico, para nenhum primo curioso, para nenhum tio assanhado, para nenhuma amiga desejosa.
Pernas fechadas.
Partes fechadas.
Como convinha.
Como convém a Judith, crescida em família, criada em Cristo, mulher para casar. Enxoval pronto, iniciado anos antes – muito tempo antes de eu nascer. Pureza garantida, casta desde sempre. Como convinha.
No calor o atrito era pior. Brotoejas cresciam o amargor aguçava a solidão se fazia sentir. Passado sem experiências. Futuro sem perspectivas.
Mas no rosto sisudo, entre rugas de não-viver, expressões duras pela falta da prática do sorriso, no canto da boca mole daquela senhora da espera um breve gozo se antecipava sem explicação a cada dia de regra. Sem que ninguém explicasse ou entendesse, Judith acordava, depois de uma noite urrando em cólicas, e se punha a caminhar.
Andava por cinco dias.
Sumia.
Apesar de não convir. Apesar de preocupar o pai o pastor as tias velhas as primas safadas os primos distantes as vizinhas próximas. Quem entenderia? Onde ia aquela mulher? Um descaminho, um despropósito, um absurdo que não cabe em si de tanto des.
Andava. Sumia. Voltava no quinto dia como quem ressuscita ao terceiro. Molhada da cabeça aos pés. A satisfação no olhar durava dois dias – até a volta do atrito, das brotoejas, da ausência.
Mas por cinco dias freqüentava o paraíso. Viscosa sensação de pernas que se acarinhavam regadas a sangue fazendo pulsar o úmido deserto. O cheiro doce de carne vivente. Dedos que se melam e passeiam entre pelos, entre o gozo que se precipita. Da ponta dos pés sentia ele chegar, subindo entre as coxas indevassadas. Corrente de estúpido prazer. Conhecia a longa morte.
Andar calor sangue suor gozo um escorrer delirante que a fazia experimentar o céu. Deitada à beira do rio, rindo da vida, eletrocutada pelo prazer.
Levitava.

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